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ESCRITA SELVAGEM EM ACÇÃO. PERMISSÃO PARA SER LIVRE!

faltam tutoriais

Desculpa, não instruções. Não há vídeo. Mas saberás quando estiveres longe demais. Mapas, vídeos, são inúteis. A única bússola em que podes confiar sabes bem onde está.

Sais do quarto e à direita encontras o teu filho adormecido, tão lindo esticado na cama que facilmente podia ser uma estrela e tu não a verias se estivesses a olhar para um mapa, um mapa inútil. Em seguida, vai directa à cozinha e vê o homem a preparar café com três ou quatro filtros de papel e um coador azul. Não há máquina de café, nem cafeteira. No entanto, este é o melhor café que bebeste em toda a semana!

Repara como hoje as cores te parecem únicas e mais vivas. Será porque o dia que aí vem – embora parco em instruções – te parece excitante?

O meu bom amigo enviou-me uma mensagem: gostava de ir primeiro a casa do meu irmão e depois ir a um bom supermercado na cidade. Desculpa, não há vídeo, nem outras instruções. Mas a bússola do teu coração rapidamente te diz que o melhor é tirar o dia de folga para estar com o teu amigo. Vai buscá-lo ao aeroporto, paga-lhe um café e um pastel de nata, leva-o a casa para deixar as malas, leva-o a almoçar, leva-o às compras, e de volta a casa. A sua presença é inigualável. Foi um dia cheio, mas descontraído, espaçoso, com o tipo de sentimento que só se tem junto a árvores gigantes.

Desculpa, não há vídeo. Mas saberás se foste longe demais. A próxima paragem é a casa de alguém, onde ela está a dormir uma sesta antes de ir buscar o marido ao lar de idosos. Todos nós vamos para lá – não há mapa, os mapas são inúteis na velhice, mas a bússola dentro de ti diz: “vamos todos lá buscá-lo, talvez isso o faça o sorrir. Talvez ele goste da surpresa (se nos reconhecer, penso).”

Segue estrada após estrada, rotunda após rotunda – aqui os sinais de trânsito não são inúteis – esta cidade no fim de agosto pode ser um lugar perigoso. Chegar lá em segurança, esperar no portão onde a carrinha com a rampa recebe as cadeiras que vagarosamente rolam para dentro, entre despedidas e até-amanhãs, para levar os idosos de volta às suas casas depois de um dia passado com amigos, ou o que quer que lhes chamem – provavelmente apenas pessoas com quem são atirados diariamente sem que ninguém lhes pergunte as suas preferências. Facilita.

Pergunto à mulher – é este o portão? Diz que sim. O mesmo portão sobre o qual ela me escreveu há uns dias numa mensagem de whatsapp, onde alguns idosos estão do lado de dentro e outros – mais novos – estão do lado de fora. E disse que aquilo podia ser facilmente trocado, sabes, tudo isso: temos de ter cuidado porque facilmente os que estão aqui fora entram e os que estão ali dentro saem. O homem mais novo a quem ela dizia isto (mas não muito mais novo do que ela!) olhou-a, chocado, sem compreender, pois a ideia de ir parar a um lar parecia-lhe completamente estranha. É óbvio que ele pensou que estava longe de ser colocado num lar. Jovem e vibrante que ainda se sentia, a velhice não viria, nunca. No entanto, a mulher vê bem a mortalidade em si mesma e nele, e sabe que pode entrar naquele portão muito em breve, por isso ficou surpreendida que o homem não tivesse visto isso também!

Desculpa, não há vídeo. Nem instruções sobre como o cheiro muda. Como aquela casa há anos cheirava a bebé quando ela dava banho aos meus filhos, os vestia, os perfumava; depois cheirava a comida caseira e ao calor das refeições que tínhamos juntos. E agora cheira a velhice, a urina e a merda, enquanto ela muda outra vez fraldas num corpo frágil, mas gostaríamos que não tivesse de o fazer. A cama, o sofá e a TV estão agora estrategicamente colocados no primeiro andar, perto da casa de banho, mas nem isso é suficiente para aliviar as cargas de roupa que ela lava semanalmente para o manter limpo. Ela diz que tudo lhe cheira a urina a toda a hora e já não sabe se pode confiar no nariz. Digo-lhe metade da verdade, que o meu nariz está entupido, por isso não consigo cheirar nada.

Não há vídeo, desculpa, não há sinalização útil, mas assim que me sentei à mesa e vi a nova configuração da casa, adaptada às recentes necessidades da velhice – enquanto ela escondia a cadeira de rodas lá em cima para que ele não a visse antes de ela ter tempo de o preparar para aquela conversa – soube que a única coisa que podia fazer era pegar em metade das roupas que ela tinha trazido do quintal e começar a dobrá-las. Os homens lá fora a falar, pai e filho, numa conversa sem sentido governada por Alzheimer, enquanto o cão saltava que nem louco, e nós as duas sentadas à mesa, a dobrar, e eu notava o cheiro misturado de detergente e urina. Abstive-me de dizer que as roupas e a casa precisavam de um programa de lavagem mais forte. Sem instruções, como é que eu ia saber que não havia problema em dizer isso? Que não seria doloroso? Não há vídeo, mapas são inúteis, e a bússola do coração disse-me para ficar calada. Disse-me para me sentar à mesa de jantar e apreciar a refeição. Antes, disse-me para ver o homem a cozinhar qualquer coisa simples para o jantar enquanto eu punha a mesa. Abri a gaveta e tirei a toalha azul, mas logo vi a vermelha por baixo e pensei sim, a ocasião pede uma vermelha, mais ardente. Quem me dera que tivéssemos tirado uma foto, mas sem tutorial é difícil lembrar-me de tudo.



                                                                                                                                             Publicado a 1/10/22
                                                             Peça inspirada no texto de Maya Stein 
Finding your way to Bodieu



PORQUE CONTAMOS HISTÓRIAS…

… porque o pássaro pousou no telhado e não pude deixar de o ver e de olhar para ele

Porque olho para o pássaro e penso em várias histórias acerca de pássaros:

a. que os pássaros têm a sorte de poder voar

b. que os pássaros inspiraram o homem a criar o avião

c. que os pássaros são um símbolo de equilíbrio, como as suas asas trabalham em conjunto de forma tão perfeita

d. que a canção dos pássaros é um dos sons mais bonitos do mundo, em conjunto com o riso de um bebé e o sino da igreja numa manhã de fim de semana

e. que o meu filho chamava os pássaros do céu quando era bebé. A ama pegava nele ao colo e dizia-lhe para chamar os pássaros, “chama-o, vem pássaro, vem”. E ele estendia a sua mãozinha para o céu e chamava em inglês “bâda, come bâda”. E de todas as vezes nós sorríamos e ele realmente pensava que os podia chamar, e eu penso se ele alguma vez pensou porque é que eles nunca vinham até ele.

f. porque os pássaros voam e os meus filhos perguntavam-me porque é que nós não podemos voar como eles. E quando viam desenhos animados voadores, acreditavam que também podiam voar e tentavam desesperadamente fazê-lo, abanando vigorosamente os braços e pedindo-me que lhes construísse propulsores que os fizessem levantar voo, coisa que trouxe muitos momentos de diversão com garrafas de plástico, fita-cola e fitas de papel coloridas, amarelas e cor-de-laranja, para imitar o fogo da ignição.

Contamos histórias porque um amigo nosso tem Alzheimer e estamos a perdê-lo. É um eufemismo para “já o perdemos.” Ele já lá não está, nem por isso, sobra apenas uma outra coisa qualquer a que não sabemos dar nome.

Escrevemos histórias para nos lembrarmos que os tempos difíceis podem ser aqueles em que nos unimos mais – nós, marido e mulher, mais juntos que nunca para dar apoio a uma mulher que está a ver o seu marido à deriva num mar que ela não conhece.

Porque há dois dias, essa mulher passou por uma igreja de Lisboa e chorou, e a condutora do Uber perguntou-lhe se queria que parasse o carro para tirar fotografias ou apanhar ar, e a amiga confortou-a, dizendo-lhe que era bom chorar, que estava a deitar tudo cá para fora. Mais tarde, eu soube que ela conheceu o marido naquela zona da cidade, há muitos anos. E deu consigo a pensar como e quem ele era nessa altura e aquilo em que se transformou tão rapidamente. Para onde foi o tempo? O que fez o tempo? Nos últimos dois anos vimo-lo desaparecer. Esta manhã acordou, pediu 20 euros e saiu para o café, onde esperou por um pedreiro da sua imaginação. Depois pediu o divórcio, outra vez, e a sua esposa levou-o a ver um advogado, depois a uma consulta com o médico de família e depois para casa, onde ele bebeu 4 copos de vinho, tendo encontrado uma garrafa que estava escondida e aberto outra cuja existência a esposa desconhecia. Depois, insultou-a, como já é hábito por estes dias. Ao fim do dia ela estava exausta e ligou para nós, em meio-choro. Contou-nos esta história.

Escrevemos histórias porque é a única coisa que podemos fazer. Colocarmo-nos no papel, esperando que as nossas histórias façam sentido para quem as lê. Esperando que alguém estenda a mão e nos diga “oh, como te compreendo, sei bem, sim, eu também…”.


                                                                                                                                          Publicado a 2/9/22
                                                                    Peça inspirada no poema de Lisel Mueller 
Why we tell stories