16 COISAS QUE NÃO PUS NO MEU CURRÍCULO 

1. Que a meio da noite, completamente exausta de ter os dois bebés doentes, fiquei ali de pé, naquele quarto quente no Gana, com o meu filho mais novo que chorava ao colo e senti-me forte. Mais forte do que alguma vez me sentira e pensei como é que isso era possível – como é que tal exaustão podia trazer tal força? Porque era a única coisa que podia fazer. Só podia segurá-los, dar-lhes mimos, dar-lhes o remédio, suar até não poder mais, tornar-me peganhenta e malcheirosa do leite materno, tomar um duche, ir para a cama e voltar a repetir tudo dentro de uns minutos ou de uma hora, dependendo de quanto tempo é que eles dormissem dessa vez.

2. Que a enfermeira me disse no hospital para não ostracizar o meu filho mais velho por causa do irmãozinho acabado de nascer. Como ela me disse que o bebé precisava de mim, mas que o mais velho precisava mais, e como eu levei essas palavras tanto a peito que aos quatro anos o meu mais novo só se agarrava ao papá, porque sentia que o outro era o menino da mamã, mas ele não.   Como demorou anos a reverter essa tendência e hoje ele ainda é muito mais menino do papá do que da mamã; às vezes isso dói.

3. Que o meu marido se levantava às 5 da manhã para ficar com eles porque ambos os miúdos acordavam ultra cedo, assim que a primeira luz entrava pelas janelas, os primeiros táxis começavam a apitar lá fora, e os seguranças trocavam de turnos e saíam para comprar comida à beira da estrada, batendo o portão, esquecendo-se que lá dentro dormiam crianças e uma mãe exausta.

4. Que o meu marido levava os miúdos a ver as garças de manhã bem cedinho. As ruas de Tema estavam cheias de lixo.

5. Que eu conhecia a pequena Efua, que passava os dias à beira da estrada com a sua mãe, vendedora de banana-pão grelhada e amendoins, uma combinação maravilhosa. Aquela menina de três anos todo o dia a brincar por ali, com nada. Uma vez apanhou malária e levei-a para dormir na nossa casa, para me certificar de que tomava os remédios a horas e que tinha uma cama confortável. Pensei que ela nunca iria para casa comigo porque chorava sempre que nos via, a família de “obroni’s”, os brancos, os terríveis. Mas ela foi comigo, sim, com todas as suas suspeitas, mas foi. Foi e comeu pouquinho, algumas batatas fritas apenas, e dormiu na nossa cama, aberta como uma estrela-do-mar, respirando pesadamente e transpirando, e eu percebi que a febre deixava o seu corpo e que pela manhã ela estaria melhor. Não consegui perceber todos os obrigadas que a sua mãe balbuciou em twi, dialeto local, mas percebi o obrigado, mil vezes obrigado.

6. Não pus no meu currículo que um dia, quando o meu filho mais velho chegou da escola a chorar porque tinha tido negativa a matemática e se achava estúpido, eu, sem saber o que fazer, o levei ao terreno e lhe mostrei os dois pinheiros que eu e o pai tínhamos plantado no fim-de-semana. Disse-lhe que, apesar de tudo, aqueles pinheirinhos iam crescer, às mãos das intempéries e que também ele, apesar das dificuldades, iria ultrapassar e crescer. Como ele olhou para mim, ainda vermelho e de pestanas molhadas, sem dizer nada. Mas no regresso a casa pegou-me na mão e começou a falar acerca de outras coisas do seu dia e eu percebi que ele estava aliviado e sorri.

7. Que faço um super chocolate quente a que os meus filhos chamam o melhor do mundo.

8. Que ainda sei a maioria das rimas infantis que costumávamos cantar quando eles eram crianças. Que fingia saltar por cima de um castiçal no último verso de uma rima e que noutra nos atirávamos para o chão e desatávamos a rir e a fazer cócegas uns aos outros, rindo ainda mais.

9. Que costumava cantar e dançar o Bombeiro Sam, a Patrulha Pata e Abram alas para o Noddy, e que ainda conheço todas ou algumas destas canções. E ainda faço a voz da Porquinha Peppa, do irmãozinho George, da mamã Porquinha e do papá Porquinho, e que ao ler histórias gosto de fazer sotaques e vozes, e critico o meu marido por ser monocórdico quando lê. O nosso livro favorito é provavelmente Tachi – As aventuras do grilo tibetano, que descreve às crianças a condição humana de uma forma tão doce e suave.  Que me espanto sempre como, controlando o seu espírito, os quatro amigos conseguiram deixar as ilhas da feiticeira Mara.

10. Que deixei de trabalhar para cuidar dos meus filhos. Que no fundo, nunca deixei de trabalhar, apenas entrei, sem saber e a tempo inteiro, no emprego mais difícil do mundo.

11. Que adoro fazer bolos sem açúcar, mas nem sempre gosto do sabor deles.

12. Que uma vez me sentei no sofá com o meu bebé a dormir ao colo, sentindo a sua respiração quentinha no meu pescoço e fiz uma publicação sobre isso no Facebook, chamando-lhe Felicidade.

13. Que uma vez o meu marido deixou a última cápsula de Nespresso em cima da mesa, com um papelinho a dizer amo-te e saiu para o trabalho sem beber o seu primeiro café, para que eu pudesse bebê-lo quando acordasse. E também publiquei isso no Facebook, chamando-lhe Amor.

14. Como fiquei triste por ter adormecido enquanto a minha cadela tinha os seus filhotes e três deles nasceram mortos, provavelmente porque estiveram muito tempo para nascer e ela estava cansada, sem o meu apoio. Como enterrei cuidadosamente aqueles cachorrinhos no nosso jardim, mas ela desenterrou-os e comeu-os. Antes de darmos as 6 fêmeas a pessoas amigas, eu costumava correr com elas e o irmãozinho. Sete minúsculas coisas pretas a perseguirem-me pelo jardim, a roerem-me os tornozelos, e como isso era pura alegria. Ficámos com o único macho da ninhada e chamámos-lhe Rocky, em homenagem ao cachorro verde da patrulha pata.

15. Que tive um acidente de carro na ilha, depois do meu marido me ter dito que provavelmente não poderíamos viajar com os cães e teríamos de os deixar para trás.

16. Não pus no meu currículo que sou leal, mas talvez devesse ter posto.